quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Toques literários

Mais uma semana, mais um livro, mais um orador (neste caso, oradora). A Patrícia Castro (6D) apresentou o livro Poetas de hoje e de ontem, de Maria de Lurdes Varanda e Maria Manuela Santos, uma antologia de poemas de sempre. A aluna elegeu "Descalça vai pera a fonte" (Luís de Camões) e "Luís, o poeta, salva a nado o poema" (Almada Negreiros) como poemas preferidos. Houve ainda tempo para um recital de poesia, tendo a Patrícia contado com a colaboração da plateia para a leitura de ambas as composições poéticas. Muito obrigada!















 


                                                       

                                                                                                                
Luís, o poeta, salva a nado o poema

Era uma vez
um português
de Portugal.
O nome Luís
há-de bastar
toda a nação
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.
Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.
Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar.
muito importante
para estudar:
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d'estalar.
Mais do que a vida
há-de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há-de salvar.
Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.
_ Mar ignorante
que queres roubar?
A minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há-de ficar.
Estas palavras
hão-de durar
por minha vida
quero jurar.
Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.
Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.
Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.
Meu corpo é Terra
de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.
Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão-de achar.
A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há-de molhar.
Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.
À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há-de gostar.
Só uma coisa
vão olvidar
o seu autor
aqui a nadar.
É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.
Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.
A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão-de gravar.
O livro é este
é este o canto
assim se pensa
em Portugal.
Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.
 
Almada Negreiros

 *


Descalça vai pera a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Saínho de chamalote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa, e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro o trançado,
Fita de cor de encarnado...
Tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa, e não segura.
Luís de Camões

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A vida é bela




As turmas do 8º ano, que se encontram presentemente a trabalhar a obra O mundo em que vivi, de Ilse Losa, assistiram ao filme A vida é bela, de Roberto Benigni. Ninguém ficou indiferente à história do pequeno Giosué. Estabeleceram-se muitas ligações pertinentes entre a obra de Ilse Losa e o filme de Benigni, num profícuo cruzamento entre as linguagens literária e cinematográfica. Ao longo dos próximos dias, iremos partilhando aqui alguns textos que mostram bem o impacto que este filme teve na sensibilidade dos nossos alunos.






CSI da língua

"ERRO CRASSO"

Significado: "erro grosseiro"


Origem da expressão: na Roma Antiga, havia o Triunvirato; o poder dos generais era dividido por três pessoas. O primeiro destes Triunviratos era composto por Caio Júlio, Pompeu e Crasso. Este último foi incumbido de atacar um pequeno povo, os partos. Confiante na vitória, resolveu abandonar todas as formações e táticas romanas e simplesmente atacar. Ainda por cima, escolheu um caminho estreito e de pouca visibilidade. Os partos, mesmo em menor número, conseguiram vencer os romanos, sendo o general que liderava as tropas um dos primeiros a cair. Desde então, sempre que alguém tem tudo para acertar, mas comete um erro clamoroso, dizemos tratar-se de um "erro crasso"...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A tecnologia, a melhor arma contra a poluição


"A tecnologia é frequentemente acusada de causar todos os males do mundo moderno, mas é, na realidade, a melhor arma da Humanidade contra a poluição, ainda que esta seja muitas vezes apresentada como o preço a pagar pelo progresso."

Jacques-Yves Cousteau,
in Segredos do Mar; o Mundo Fascinante dos Oceanos e das Ilhas



A partir da frase do oceanógrafo Jacques Cousteau e do vídeo produzido pelo Oceanário, os alunos de 10ºano produziram um texto de opinião, sobre o papel da tecnologia no combate à poluição. Publicámos na página do 10ºano, aqui, o texto do aluno Pedro Martins.

domingo, 20 de outubro de 2013

Clube dos poetas vídeos # 6


Vinícius, Vinícius, Vinícius...


Centenário de Vinícius de Moraes




















Vinícius de Moraes completaria este sábado cem anos. Dia 18, na Casa Fernando Pessoa, teve lugar uma maratona de leitura dos seus poemas que contou com a participação de Pedro Mexia, Lídia Jorge e Nuno Júdice. Nesta evocação, recordamos o poema que o carioca dedicou à tragédia de Hiroxima, que Pedro Arrupe testemunhou. 


A Rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atómica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

                                                     Vinícius de Moraes





sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Livrarias de Lisboa - Pó dos Livros


   
Surgida em 2008, a Pó dos Livros é uma das mais bonitas e interessantes livrarias de Lisboa. Situada na Avenida Marquês de Tomar, bem perto dos jardins da Fundação Gulbenkian, tem uma oferta de livros muito abrangente e uma decoração ao estilo inglês. Segundo Jaime Bulhosa, o proprietário, "a Pó dos Livros é uma livraria de bairro, independente, alternativa, com livreiros experientes e gosto pela partilha das suas leituras. Tem um conceito arquitetónico que nos transporta para um ambiente retro, decorada com objetos de outros tempos, fazendo lembrar as antigas e tradicionais livrarias de Londres, com estantes altas, negras, de madeira trabalhada, e com as paredes coloridas. Procura atrair um público diferenciado do das livrarias de grande superfície, clientes mais exigentes, mais seletivos, se quiserem."
   No piso de cima da Pó dos Livros, para além de uma pequena cafetaria, o espaço é ocupado por estantes repletas de títulos dos géneros literários mais comuns, como o romance, a poesia e o teatro. O piso de baixo, por seu turno, é quase inteiramente dedicado à literatura infanto-juvenil.    
   Uma sugestão: visitar a Pó dos Livros, comprar um livro e passar uma tarde de leitura nos jardins da Gulbenkian.  

Para mais informações:

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Toques literários


   Mais uma semana, mais um livro, mais um orador. Hoje, o Guilherme Barata (8D) apresentou, na Biblioteca, o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal. Os espectadores compareceram em grande número e renderam-se ao entusiasmo do Guilherme. Ficámos a saber que o livro selecionado marcou de forma especial o aluno, por ter sido a obra que lhe despertou o prazer da leitura. Foram momentos de partilha e de conversa descontraída que ficarão na memória de todos os que tiveram o privilégio de assistir. Muito obrigada!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

CSI da língua

A origem da palavra "tubarão" é desconhecida. A primeira vez que foi referida em português foi no relato de Pêro Vaz de Caminha da descoberta do Brasil. Provavelmente, trata-se de um termo tupi (língua nativa brasileira).
 
A palavra "rémora" deriva do latim remora (“demora, obstáculo, atraso”), formada por re-, intensificativo, mais mora, “demora, atraso”. Antigamente, corria o boato de que grupos de rémoras aderiam ao casco de embarcações, atrasando o seu percurso.
 
Muito conhecida de todos é a sardinha. Vem do latim sardina, palavra que derivou da ilha de Sardenha, perto da costa oeste da Itália. E o nome da ilha vem do latim Sardus, que designava os seus habitantes, provavelmente com origem em alguma divindade local. Esse peixe era abundantemente pescado nas águas ao redor da ilha, daí o nome.
 
O "bacalhau" tem uma origem pouco comum em Português; trata-se de um termo que deriva do holandês kabeljauw, equivalente a “bastão-peixe”. Curiosamente, depois de preparado, torna-se duro como madeira, o que é muito vantajoso para o armazenar e guardar, daí o nome.
 

domingo, 13 de outubro de 2013

Prémio Namora para Agualusa


O último romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa, Teoria Geral do Esquecimento, é o vencedor do Prémio Literário Fernando Namora.
 
Pela primeira vez foram divulgados os finalistas, que além de Agualusa incluía obras dos escritores Afonso Cruz (Jesus Cristo Bebia Cerveja), Ana Cristina Silva (O Rei do Monte Brasil), Julieta Monginho (Metade Maior) e Rui Nunes (Barro).
 
No comunicado enviado à imprensa, a escolha do júri é justificada pela “escrita ágil de um autor que sabe realizar uma especial economia de efeitos, encontrando uma linguagem em que o português é falado em interceção com outros modos”, segundo o texto da ata. No mesmo documento, o júri salienta que “esta obra engrandece o apurado estilo literário da ficção do autor”.
 
O júri foi presidido pelo escritor Vasco Graça Moura e integrou Guilherme d`Oliveira Martins (Centro Nacional de Cultura), José Manuel Mendes (Associação Portuguesa de Escritores), Manuel Frias Martins (Associação Portuguesa dos Críticos Literários), Maria Carlos Gil Loureiro (Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas), Maria Alzira Seixo e Liberto Cruz, convidados a título individual, e ainda Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, pela Estoril Sol.
 
Ver notícia completa do Público aqui.
 
Sobre o livro...
 
Luanda, 1975, véspera da Independência. Uma mulher portuguesa, aterrorizada com a evolução dos acontecimentos, ergue uma parede separando o seu apartamento do restante edifício - do resto do mundo. Durante quase trinta anos sobreviverá a custo, como uma náufraga numa ilha deserta, vendo, em redor, Luanda crescer, exultar, sofrer.
 
Teoria Geral do Esquecimento é um romance sobre o medo do outro, o absurdo do racismo e da xenofobia, sobre o amor e a redenção.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Prémio Nobel da Literatura 2013

  De entre os vários candidatos ao Prémio Nobel da Literatura de 2013, foi Alice Munro, uma escritora canadiana de 82 anos, quem acabou por vencer esta 110.ª edição da mais prestigiada distinção literária a nível mundial. A Academia Sueca, responsável pela atribuição do galardão, reconheceu em Alice Munro as virtudes de um “mestre do conto contemporâneo”. Em Portugal, Alice Munro tem vindo a ser publicada pela editora Relógio D’Água. É, portanto, uma oportunidade de leitura a não perder!    
Mais informações em:

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"Toques literários"



Mais uma semana, mais um livro... A Inês Fernandes e a Micaela Silva (11C) apresentaram, hoje, na Biblioteca, a sua experiência de leitura de Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. A Micaela adorou a história de amor entre Simão e Teresa, pelo seu caráter trágico e pela profundidade dos sentimentos, bem ao gosto romântico da época. A Inês, por sua vez, destacou o ritmo, na sua opinião, por vezes, demasiado rápido da narrativa. Deixamos o nosso agradecimento às duas por mais uma sessão de motivação para a leitura!





terça-feira, 8 de outubro de 2013

À maneira de... Almeida Garrett

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Pedimos aos alunos de Literatura Portuguesa (11C) que reinterpretassem o lirismo garrettiano, criando o seu próprio poema, respeitando o estilo e a gramática literária do escritor romântico. O resultado é, no mínimo, surpreendente... Para espreitar aqui, na página desse nível de escolaridade.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Livrarias de Lisboa - Letra Livre

A Livraria Letra Livre fica no n.º 139 da Calçada do Combro. Vende livros novos, usados e edições raras. É de salientar também a boa coleção de poesia portuguesa contemporânea que aí podemos encontrar.

Informações adicionais sobre a Letra Livre:




  

domingo, 6 de outubro de 2013

Padre António Vieira por Diogo Infante




Vista geral do espetáculo.
As turmas do 11º e do 12º anos assistiram, no dia 4 de outubro (sexta-feira), no Teatro da Comuna, ao recital do "Sermão de Santo António aos Peixes", de Padre António Vieira, interpretado por Diogo Infante.

Numa roupagem moderna e minimalista, que parecia enfatizar a atualidade da obra, e com recurso a efeitos de luz e de som, o ator prendeu o auditório do início ao fim. E, como se de um púlpito se tratasse, "pregou" aos "peixes", elogiando as suas virtudes e denunciando impiedosamente os seus defeitos.

No final do espetáculo, partilhou com os nossos alunos as suas impressões de leitura e o impacto da descoberta de Vieira, destacando a sua extraordinária contemporaneidade.


Diogo Infante e o grupo de alunos de 11º e 12ºanos.

 
O ator com o grupo de professores acompanhantes.

 
 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

"Toques literários"



Mais uma sessão, mais um livro, mais um orador brilhante, neste caso, oradora. Assistimos, hoje, na Biblioteca, à apresentação do livro Os Lusíadas para gente nova, de Vasco Graça Moura, por parte da aluna Carolina Branco (9ºC), que nos conduziu, de forma brilhante, pelo universo camoniano reinterpretado, em verso, por aquele escritor contemporâneo. E não faltaram as alusões ao Consílio dos Deuses, à Batalha de Ourique, ao amor entre Pedro e Inês, e a tantos outros episódios marcantes. Bravo!
                   


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Projeto | Teatro

 


Foi hoje lançado às turmas de 7ºano, no auditório do colégio, o desafio de contrução de um espetáculo teatral sobre a figura de Pedro Arrupe. O entusiasmo ficou imediatamente estampado no rosto de todos os alunos, que acolheram a ideia com grande alegria e muita curiosidade. 
O projeto, de natureza transversal, conta com a coordenação e dinamização da Pastoral e  de Formação Humana, recebendo a colaboração direta dos departamentos de Português, Artes e Música. E o sonho começa a ganhar forma...

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Fernando Pessoa visto por José Saramago

Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal.
 
Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de ótica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspeto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.