sexta-feira, 30 de maio de 2014

Sugestão de leitura

Deixamos mais uma sugestão de leitura. E este livro é muito especial para nós, uma vez que foi escrito pela Daniela Vieitas, nossa colega! Além de integrar a Pastoral e de partilhar com os nossos alunos a sua paixão pelo teatro e pela poesia, reservou-nos também esta surpresa: um conto lindíssimo sobre o(s) lugar(es) do perdão e da vida, sobre a transfiguração do nada e da poeira em "nós", em flor, em (re) início, em infinito... E as ilustrações (de Margarida Ramos) são maravilhosas...




Deixamos alguns excertos:

«Há muito, muito tempo, num tempo de que já ninguém se lembra, havia um lugar que tinha nada. Nada de nada no Lugar do Nada. Quem passava não olhava, quem olhava não reparava, porque o Lugar do Nada tinha nada.»




«Foi a primeira vez que a terra os saudou, na carne daquela flor, e foi o Homem que chorou o choro dos que não sabem chorar.
- Tão bela, disse o Homem.
- Tão bela a flor desta terra, completou a mulher
- Tão bela que és tu para mim.
- Nasceu uma flor branca, este já não pode mais ser o Lugar do Nada.
- Será o Lugar do Coração.
- Uma terra não se pode chamar Lugar do Coração, porque o coração não se aprisiona a um lugar. Chamemos-lhe antes o Lugar da Água Flor.
- Lugar da Água Flor, disse o Homem.
- Onde o coração pode ser livre.»

O prefácio é do Professor Joaquim Azevedo. 
Eis algumas passagens:

«Homem e mulher, corpos-almas feitos e refeitos, em criação contínua, no amor e no perdão - e que belos gestos de perdão nos revela aqui Daniela Vieitas! - e que leveza têm os desenhos de Margarida Ramos, inscritos na terra, deixando para trás o nada!»

«Um dos maiores dramas do nosso tempo - continua - é a avalanche de objetos-ídolos que nos envolve e vira para dentro, que, sendo absolutos, nos separam do outro, deixando-nos mais sós! O lugar humano é esse campo onde germina o encontro, a dádiva da vida, o perdão; um lugar onde só pode nascer vida.» 

Bibliotecando

Deixamos as sugestões de leitura para junho (e férias!), enviadas pela equipa da Biblioteca:

2.º Ciclo:
O peixe azul, de Margarida Fonseca Santos




















Excerto:

“Bom, chamei a Joana. Refilou imenso mas veio. Eu disse-lhe que era uma experiência com desenhos e que queria que ela fosse a primeira a ver. Ela não resistiu. Realmente, a Joana tem essa parte boa – gosta imenso dos meus desenhos. (…)
A Joana olhou, olhou. Mudou o desenho de orientação levando o peixe de roldão, mas não dizia nada. Até pôs a língua de fora para ver melhor. Eu tinha-lhe dito que era um desenho abstrato com um peixe escondido.
- Tu estás a gozar comigo, Daniel.
- Porquê?
- Não vejo nenhum peixe desenhado.
- A sério?
- A sério…?! Tu estás é a brincar comigo, é o que é! Parvo!
(…) Saiu e bateu com a porta. Eu acho que é da idade, estas cenas de bater com as portas e achar que é a maior. Tem dezasseis anos, coitada!”



3.ºCiclo
O meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos





















Excerto:

«Durante dois dias, apesar da minha saudade, não fui ver o Português. Nem deixavam que eu fosse à Escola. Ninguém queria testemunho de tanta brutalidade. (…) Passava os dias sentado com o meu irmãozinho junto de Minguinho, sem vontade de conversar. Com medo de tudo. Papai tinha me jurado que me moeria de pancada se eu repetisse outra vez o que dissera à Jandira. De modo que eu respirava até com medo. Melhor era me refugiar na sombra do meu pé de Laranja Lima.
Entretanto minha saudade era muito grande. O Portuga deveria estranhar a minha ausência e se ele soubesse realmente onde eu morava, era até capaz de me vir procurar. Fazia falta ao meu ouvido, à ternura do meu ouvido aquele jeito de falar meio carregado e cheio de “tu”. D. Cecília Paim me dissera que a gente para tratar os outros de tu, precisava saber muita gramática.»

Secundário:

«Aqui é o Paraíso!» Uma infância na Coreia do Norte, de Hyok Kang e Philippe Grangereau















Excerto:

«Para explicar as razões da fome, os quadros do partido invocavam “catástrofes naturais”. Diziam que tinha chovido demasiado, que as inundações tinham causado desastres em todo o país. Em Usong (…) não era esse verdadeiramente o caso. (…) De qualquer modo, como era praticamente impossível viajar através do país, ninguém podia verificar se isso era verdade. As autoridades diziam-nos também que os Estados Unidos e a Coreia do Sul tinham a sua quota de responsabilidade nessas carências, visto que eram eles que tinham desencadeado a Guerra da Coreia. Segundo as suas autoridades, sem essa guerra, a Coreia teria sido reunificada e tudo isto nunca teria acontecido. Portanto, era tudo culpa dos imperialistas americanos e dos fantoches do Sul. Evidentemente, eu aceitava essa argumentação tal e qual, sem me questionar. Só muitos anos depois, já na Coreia do Sul, é que soube, para minha grande perturbação, que a Guerra da Coreia tinha sido desencadeada não pelos “fantoches do Sul”, mas pelo próprio Kim Il-Sung.»

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Odisseia da leitura



















E ontem foi assim... Começámos às 21h em ponto e crescemos com Telémaco durante os quatro primeiros Cantos de Odisseia. Terminámos a leitura às 23h25. Muito obrigado aos 58 leitores homéricos e a todos os que se juntaram a nós nesta aventura!

“ Pela tua parte, amigo – vejo como és alto e belo -,sê corajoso, para que homens ainda por nascer falem bem de ti.”


Homero, Odisseia, Canto I.300-301

domingo, 18 de maio de 2014

Odisseia da leitura




É já nesta terça-feira, dia 20 de maio, às 21h, no auditório do Colégio, que realizamos a primeira leitura pública de alguns Cantos (I - IV) da obra Odisseia, de Homero. A atividade encerrará o Programa "República das Letras", orientado pelo Professor Miguel Monjardino, e contará com a participação (e leitura) de alunos do secundário e professores. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Concurso Nacional de Leitura


Realizou-se hoje, no Agrupamento de Escolas Cardoso Lopes, na Amadora, a segunda fase (distrital) do Concurso Nacional de Leitura. O Colégio foi (muito bem) representado pelos nossos alunos:


3.º ciclo


Tomás Lopes - 7.ºB

Francisco Baptista - 7.ºB

Maria do Mar - 9.º C




Secundário


Madalena Zambujeiro - 10.º A1

António Alvarez - 11.ºA
Madalena Cardoso - 12.ºABC





E conseguimos passar à fase nacional, graças à memorável prestação da aluna Madalena Zambujeiro (10A1), vencedora da fase distrital  (Secundário). Muitos parabéns!

O aluno Francisco Baptista (7B) conquistou o segundo lugar no 3.ºCiclo. Muitos parabéns!

O nosso agradecimento a todos os alunos, pelo empenho e pelo entusiasmo, bem como aos professores coordenadores (Aida Lemos e Paulo Tavares), que são a alma do projeto. Foi um dia longo, mas pleno de emoções, porque ler + é partilhar outros mundos! 

Os livros desta fase do Concurso Nacional de Leitura foram:
3.º Ciclo:
O aprendiz de guerreiro — o reino do Petzet, de Margarida Fonseca Santos;
Sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare (adaptação de Hélia Correia).
Secundário:
O Retorno, de Dulce Maria Cardoso;
Debaixo de algum céu, de Nuno Camarneiro.

Prometemos, nos próximos dias, publicar mais fotografias, vídeos e o testemunho dos participantes.

O grupo CPA com os professores coordenadores do projeto

domingo, 4 de maio de 2014

Um Ulisses da modernidade | Homenagem a VGM











Poeta, tradutor, ensaísta, Vasco Graça Moura foi, sobretudo, um humanista. Acérrimo defensor da língua e da cultura, cultivando-as com uma erudição inusitada, destacou-se igualmente no terreno da reflexão sobre a Europa e sobre o seu futuro, sempre fiel a essa matriz comum e remotíssima que nos une. 

Como homenagem, ficam as capas de alguns dos seus livros e traduções, assim como uma passagem de Claudio Magris, que considerou, numa das suas crónicas, uma "reflexão exemplar":

"a grande pergunta que um Ulisses sente dirigirem-lhe e dirige a si próprio é se ele, atravessando o mundo e a existência, pode voltar a casa, a Ítaca, ou seja, a si mesmo, confirmado [...] na sua identidade e confirmando o sentido da sua vida, ou se será forçado a ir sempre mais adiante e sempre mais longe, descobrindo a impossibilidade de formar a sua pessoa e de encontrar um significado nas coisas, perdendo-se pelo caminho e tornando-se continuamente um outro. Essa odisseia sem retorno a Ítaca é, com efeito, a viagem, o destino mais frequente dos Ulisses modernos."
Claudio Magris, in Alfabetos









Bibliotecando

Deixamos as sugestões de leitura para este mês, enviadas pela equipa da Biblioteca.

Fica a homenagem especial a Vasco Graça Moura e a Gabriel García Márquez nos livros escolhidos.
  


2º ciclo
A minha Tia é uma baleia,de Anne Provoost

 










Excerto:
«Segurei na fotografia com dois dedos e observei-a. (…) Tinha óculos, e o cabelo era muito fino, como se já começasse a ficar careca. Não sorria, nem tinha arranjado a camisa. Fiquei com a impressão de que não reparara no fotógrafo nem na sua máquina. Bem vistas as coisas, até parecia que não sabia bem o que era um fotógrafo. Os seus olhos não estavam na fotografia, porque a luz do flash reflectia-se nas lentes dos óculos. Na fotografia estava a cara da Tara, mas os seus pensamentos estavam longe dali, via-se logo. Na altura, eu tinha nove anos e pensava que a Tara não tinha pensamentos.»


3º ciclo
Os Lusíadas para gente nova, de Vasco Graça Moura

 










Excerto:

Sabemos muito pouco de Camões
Mal sabemos quem foram os seus pais,
Quanto ao seu nascimento há discussões,
Dos seus estudos não se sabe mais.
Passou dezassete anos aos baldões
Na Índia e em paragens orientais.
Fazia belos versos muitas vezes.
N’ Os Lusíadas canta os Portugueses.

Quando voltou a Portugal, saiu
O seu livro. Camões era tão pobre
Que não se sabe como o conseguiu.
Talvez tivesse a ajuda de algum nobre
E ajuda com certeza ele pediu.
Enfim, o livro sai e se descobre
Que aquele altivo português de gema
Pusera a nossa História num poema.


A rapariga que roubava livros, de Markus Zusak

 










Excerto:
«ALGUMA INFORMAÇÃO ESTATÍSTICA
Primeiro livro roubado: 13 de janeiro de 1939
Segundo livro roubado: 20 de abril de 1940
Intervalo entre os citados livros roubados: 463 dias

(…) As pessoas podem dizer-lhes que a Alemanha nazi foi edificada no antissemitismo, um líder um tanto ou quanto excessivamente zeloso, e uma nação de fanáticos empanturrados de ódio, mas tudo isso teria dado em nada se os alemães não adorassem uma atividade especial.
Queimar.
Os alemães adoravam queimar coisas. Lojas, sinagogas, Reichtags, casas, artigos pessoais, gente assassinada e, é claro, livros. Eles apreciavam realmente uma boa queima de livros – o que proporcionava às pessoas parciais em relação a estes a oportunidade de deitar a mão a certas publicações que não obteriam de outra maneira. Uma pessoa que possuía essa inclinação, como sabemos, era uma rapariga franzina chamada Liesel Meminger. Ela pode ter esperado 463 dias, mas valeu a pena. No fim de uma tarde recheada de muita excitação, muita maldade bela, um tornozelo ensopado em sangue, e uma bofetada de uma mão em que ela confiava, Liesel Meminger obteve a sua segunda história de sucesso. O Encolher de Ombros. Era um livro azul com letras vermelhas gravadas na capa, e havia uma pequena imagem de um cuco, igualmente vermelho sob o título. Olhando para trás, Liesel não sentia vergonha por o ter roubado. Pelo contrário, o que mais se assemelhava a essa pequena poça de sentir algo no estômago, era orgulho».


Secundário
Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez












Excerto:
«Desde o momento em que o viu, Meme deixou de se enganar a si mesma e compreendeu que o que realmente se passava era que não podia suportar o desejo de estar a sós com Mauricio Babilonia e indignou-a a certeza de que ele o tinha compreendido ao vê-la chegar.
- Vim ver os novos modelos [de carros] – disse Meme.
- É um bom pretexto – disse ele.

Meme deu-se conta de que se estava a queimar no lume da sua altivez e procurou desesperadamente uma maneira de o humilhar. Mas ele não lhe deu tempo. “Não se assuste”, disse em voz baixa. “Não é a primeira vez que uma mulher fica louca por um homem”. Sentiu-se tão desamparada que saiu da oficina sem ver os modelos novos e passou a noite a debater-se entre extremos e a chorar de indignação».

sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de abril - a poesia está nas ruas



       25 de abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
  

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
in O Nome das Coisas, 1974

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Gabriel García Márquez | Viver e contar



A nossa homenagem a "Gabo" (como era carinhosamente tratado pelos amigos) chega sob a forma de montra de livros. São sugestões imperdíveis, que nos fazem viajar pelo mundo mágico deste escritor (que era também um leitor compulsivo).  A notícia do Público sobre a morte do escritor colombiano pode ser consultada aqui.























domingo, 30 de março de 2014

Semana do Mar

Ainda a propósito do Dia Mundial do Teatro e como pórtico de entrada da semana que amanhã começa no colégio, dedicada aos projetos de investigação sobre o MAR, deixamos um excerto de Ode Marítima, interpretado por Diogo Infante.

    (clicar para ver e ouvir)

Bom mergulho na Semana do Mar!

Dia Mundial do Teatro

Celebrou-se na passada quinta-feira, dia 27 de Março, o Dia Mundial do Teatro e não poderíamos deixar de assinalar esta data. Por isso, deixamos aqui a mensagem do encenador sul-africano Brett Bailey e a sugestão para uma ida ao teatro.

            “Desde que existe sociedade humana, existe o irreprimível espírito da representação. Debaixo das árvores, nas pequenas cidades e sobre os palcos sofisticados das grandes metrópoles, nas entradas das escolas, nos campos, nos templos; nos bairros pobres, nas praças públicas, nos centros comunitários, nas caves do centro das cidades, as pessoas reúnem-se para comungar da efeméride do mundo teatral que criámos para expressar a nossa complexidade humana, a nossa diversidade, a nossa vulnerabilidade, em carne, em respiração e em voz. Reunimo-nos para chorar e para recordar; para rir e para comtemplar; para ouvir e aprender, para afirmar e para imaginar. Para admirar a destreza técnica, e para encarnar deuses. Para recuperar o fôlego coletivo, na nossa capacidade para a beleza, a compaixão e a monstruosidade. Vivemos pela energia e pelo poder. Para celebrar a riqueza das várias culturas e para afastar as fronteiras que nos dividem.”

Brett Bailey, excerto da mensagem da UNESCO 
para o Dia Mundial do Teatro. Retirado daqui.



Sugestão:



domingo, 23 de março de 2014

"O que de verdade importa"



O aluno Manuel Theotónio partilha a experiência de participação, juntamente com outros alunos do 10.ºano, no ciclo de conferências "O que de verdade importa", no Campo Pequeno. Um dos oradores, Jaume Sanllorente,  é o autor de um livro que o Manuel lera, e que lhe fora sugerido pela Rita Lancastre, coordenadora da Biblioteca. Há livros e experiências assim, que mudam a nossa vida!...





Nesta sexta-feira, 14 de março, os alunos do 10.º ano foram assistir ao ciclo de conferências “O que de verdade importa”, no Campo Pequeno, organizada pela fundação homónima, de origem americana, que desenvolve projetos principalmente em Espanha. Esta ideia surgiu quando, quase por acaso, descobri que Jaume Sanllorente (autor de um livro que me marcou profundamente) viria a Lisboa para uma palestra. No dia seguinte, desafiei os meus colegas e alguns professores, e estes aderiram de imediato e com entusiasmo.

Chegámos bem cedo ao Campo Pequeno; no interior do recinto, podia notar-se uma certa ansiedade e muita alegria... Por toda a cidade, estavam espalhados cartazes e anúncios, fora feita publicidade também na rádio, televisão e redes sociais, e, por isso, foram criadas altas expectativas. Estas, posso dizê-lo agora, não foram apenas atingidas; foram ultrapassadas.

Neste evento, os testemunhos de pessoas com histórias de vida inspiradoras foram contados na primeira pessoa. Foi a primeira vez que esta fundação realizou algo em Portugal e conseguiu encher metade do Campo Pequeno, com uma assistência de cerca de duas mil pessoas.

O primeiro orador foi Bento Amaral, tetraplégico devido a uma infeliz “carreirinha”. Foi campeão do mundo de vela de paralíticos e ficou em oitavo lugar, representando Portugal nos Paraolímpicos. Atualmente, é enólogo e tem uma mensagem muito curiosa: apesar de as palavras FELICIDADE e FACILIDADE serem semelhantes em português, a felicidade não se encontra no caminho mais fácil. Para ser feliz, ou, por outras palavras, para ser um venceDOR/ganhaDOR/conquistaDOR, é necessário superar alguma dor, sempre com o amor e a ajuda dos outros.

O segundo orador, Jaume Sanllorente, começou a sua partilha, dizendo que nos ia ensinar a pintar uma parede do tamanho de dois campos de futebol com um frasco de tinta com a dimensão de um copo de iogurte! Este espanhol era uma pessoa com uma vida normal, mas, numa viagem à Índia, apercebeu-se da realidade das crianças exploradas sexualmente; abdicou de tudo o que tinha (trabalho, casa, família, conforto) e mudou-se para Bombaim. Fundou a ONG “Sorrisos de Bombaim”, com o objetivo de dar uma nova vida a estas crianças. Concluiu dizendo que, se cada um de nós puser um pouco de tinta do nosso potinho, conseguiremos pintar juntos uma parede inteira, mesmo que esta seja gigante.

Após uma pausa para almoço, ouvimos o grande (quer em estatura, quer em espírito) João Semedo Tavares. Depois de uma vida muito atribulada (tendo estado preso dez anos por pequenos crimes e viciado em droga), Johnson (como é conhecido) decidiu partilhar a sua história e ajudar os outros. O que mais admiro nele é a gratidão e o amor que sente pelos outros; mas também a força que teve para sair desta espiral negativa para divulgar a sua mensagem, tanto nas prisões, como no dia a dia, no seu projeto, retirando miúdos da rua, através do desporto.

Por último, tivemos o privilégio de escutar uma sobrevivente do tsunami ocorrido na Tailândia, María Belón. A sua história inspirou a ação do filme “O Impossível”. Conseguiu tocar-nos com a sua mensagem simples e profundamente inspiradora: ao sobreviver a esta catástrofe, percebeu que ser feliz é fácil; só é necessário vida e amor, e é isto o que de verdade importa.

Ao longo destes testemunhos, o meu coração parecia que se queria soltar e, à medida que decorria o ciclo de conferências, muitos foram os "murros no estômago". Senti-me de certo modo desconfortável e inquietado, porque, muitas vezes, não damos o merecido valor ao que a nossa vida nos reservou. Logo à saída do recinto, notei uma diferença significativa na maneira de agir dos meus colegas; vários vieram ter comigo dizendo que estavam gratos por esta experiência e que tinham adorado. Creio que este momento mudou a nossa forma de encarar a vida e a maneira como valorizamos o que temos e o que somos; quando julgarmos alguém, vamos pensar duas vezes, pois, como nos ensinaram aqui, não conhecemos o seu passado - só assim podemos claramente perceber mais facilmente o que de verdade importa.

Concluindo, perante esta mensagem e estas histórias de vida tão nobres, tão fortes, sentimo-nos impelidos a fazer algo, para que o mundo seja melhor, ou, nas palavras de Pedro Arrupe, "para que o mundo [não] continue como se não tivésse[mos] vivido".

Manuel Theotónio, 10.º ano